Sobre
Arthur F. Paschoal
Depois de quase vinte anos afastado, retornei à fotografia e percebi que ela nunca havia realmente saído de mim. Voltei justamente pelo que sempre me encantou: as câmeras antigas, o filme, o grão e a maneira mais lenta e cuidadosa de construir uma imagem.
Ao retornar, espantou-me perceber o quanto tudo havia mudado — especialmente a tecnologia e as possibilidades quase ilimitadas de editar, corrigir e até reconstruir uma fotografia. Também me surpreendeu a quantidade absurda de cliques feitos hoje em um único evento. Embora compreenda as facilidades e a segurança desse processo, acredito que o excesso pode ser contraproducente: quando tudo é registrado para ser escolhido e corrigido depois, cada imagem corre o risco de perder um pouco daquilo que deveria torná-la única, rara e especial.
Sinto algo semelhante diante de imagens excessivamente editadas ou produzidas com o auxílio da inteligência artificial. Muitas vezes, tudo se torna perfeito demais: a luz, a pele, os cenários, as expressões e até as emoções parecem saídas de uma grande produção de Hollywood. O resultado pode ser impressionante, mas também artificial. Na tentativa de eliminar falhas, marcas e imprevistos, corremos o risco de eliminar justamente aquilo que nos torna humanos. Para mim, quando a fotografia deixa de preservar a imperfeição verdadeira de um momento e passa a fabricar uma realidade ideal, ela não apenas altera a lembrança: acaba, de certa forma, desumanizando-a.
Hoje, fotografar é reencontrar uma parte de quem eu era, mas com o olhar, a experiência e as histórias que acumulei ao longo do tempo. É tentar voltar a observar antes de clicar, aceitar a beleza das imperfeições e procurar o instante que realmente merece ser preservado.